sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Butecando: Síndrome do Protagonista

Antes de falar do que vem a ser propriamente "Síndrome do Protagonista", achei melhor dar uma "pesquisada" rápida por aí (google), da definição de cultura de massa. Acho que esse conceito é meio um senso comum, apesar de ser difícil de definir precisamente o que é, então não vi problemas na definição da valorosa Wikipédia:

"Cultura de massa (também chamada de cultura popular ou cultura pop) é o total de ideias, perspectivas, atitudes, memes, imagens e outros fenômenos que são julgados como preferidos por um consenso informal contendo o mainstream de uma dada cultura, especialmente a cultura ocidental do começo da metade do século XX e o emergente mainstream global do final do século XX e começo do século XXI.

Fortemente influenciada pela mídia de massa, essa coleção de ideias permeia o cotidiano da sociedade. Em contraste, o folclore se refere a um cenário cultural de sociedade mais locais ou pré-industriais."

Bem, então a tal cultura de massa permeia a vida do homem contemporâneo e faz parte do substrato social. Em nossa sociedade somos cooptados, desde crianças, pela cultura de massas. Isso continua durante toda a juventude, fase da vida em que o ser humano está formando o caráter e por isso é mais vulnerável a tudo o que é externo.

Assim sendo, no momento de nossa formação como pessoas, somos bombardeados por toda sorte de construções de mundo idealizadas que nos vêm através da mídia de massa, seja televisão, revistas em quadrinhos, cinema, etc.

Na Grécia antiga, a sociedade via as estórias (epopéias, tragédias, comédias), mais como uma forma de formação e educação dos indivíduos que como um mero entretenimento. Ora, talvez por terem um alto atrativo enquanto entretenimento, as estórias eram, para os gregos, uma ferramenta muito útil para a formação do caráter dos indivíduos.

Pois bem, considero que as estórias continuam tendo um grande poder de formação do ser humano. Ela entretem, diverte, e, acima de tudo, incute idéias que passam a fazer parte do caráter da pessoa. Em nossa juventude, no contexto da cultura de massas e da mídia de massa, somos educados pelas estórias produzidas em série por esta última. Tais estórias, visando atingir "as massas", devem ser produtos de fácil "digestão". Elas devem agradar à maioria. Dessa maneira são produzidos os enlatados midiáticos como as novelas, o cinema caça-níquel americano, as revistas em quadrinhos, as séries, etc.

Um dos pontos que mais me chamam a atenção nestas estórias é a questão do protagonista. Em princípio, nós devemos nos identificar com um protagonista. E, como a estória deve agradar à massa, o protagonista, com o qual esta massa se identifica, deve sempre se dar bem, conseguir todos os seus objetivos, alcançar o grande amor e viver feliz para sempre, seja qual for a concepção que se tenha disso.

Essa identificação com os protagonistas das estórias produzidas pela cultura de massa produz o que eu chamo aqui, de "Síndrome do Protagonista". Essa síndrome, sendo fruto de tal cultura, incute valores no substrato social, pois atinge o ser humano em formação. Somos educados pelas estórias, e elas fazem pensar que nós somos os protagonistas. Crescemos pensando que somos protagonistas de uma trama, protagonistas de nosso mundo projetado. Dessa forma, pensamos que todos os nossos desejos, dos mais mesquinhos e primitivos até os mais elevados, serão realizados, que alcançaremos todos os nossos objetivos e seremos felizes para sempre, pois, de certa forma, assim está escrito. Esquecemos que nossa própria estória não é um enlatado para as massas. Esquecemos que a nossa estória não é algo forjado, em que não há, em absoluto, qualquer protagonista individual.

Está é, para mim, a causa de muitos dos males existentes em nossa sociedade contemporânea. O indivíduo quer ser o protagonista, mas, diante da impossibibilidade disso, se frustra. Muitos se frustram. Muitos tentam se perder do mundo. Seria este um dos motivos da grande onda de depressões e doenças mentais que afligem tantos hoje em dia? E o aumento assustador do uso de anti-depressivos, que nem sempre são usados para curar doenças propriamente ditas?

Não estou dizendo aqui que a pessoa não deva buscar a felicidade eterna, seja lá o que isso quer dizer. Somente tenho a convicção de que devemos abandonar a idéia de que somos protagonistas. As coisas não vão acontecer do jeito que você deseja somente por que você quer. O protagonistas das estórias terão um final feliz porque assim deve ser, o roteiro é forjado. Na vida real, muitos de nós se vê como esse protagonista e se frustra, pois, definitivamente, não podemos forjar a estória de nossas vidas.

O indivíduo vive na sociedade de massas, mas quer ser seu protagonista individual, um paradoxo a ser evitado. Devemos tentar ser coautores de nossas vidas, tendo a certeza de que não somos os protagonistas.








domingo, 17 de abril de 2011

Morte da filosofia e os "especialistas"

Se você não sabe, caro leitor, a filosofia está morta. E o fato mais nefasto da morte da (ou falta de) filosofia e do pensamento reflexivo é que grande parte das pessoas passam a considerar que as coisas do mundo, que poderiam ser alvo de reflexão, são dadas. Nesse sentido, tanto as instituições como o conhecimento científico se tornam paradigmas inalienáveis. Isso é o que ensejará de vez a morte da sabedoria e do espírito humano (se é que isso já não ocorreu).

Eu posso até escrever bobagens aqui, ou pelo menos o que muitos "pensadores de peso" ou filósofos profissionais/acadêmicos podem achar ser bobagem, principalemente em se tratando de alguém que não tenha tido contato direto com grande parte do vasto material intelectual produzidos pelos filósofos através dos tempos (não tive contato AINDA, diga-se de passagem). Mas, como não há uma definição exata e científica do que faz um filósofo ou mesmo o que é de fato a filosofia (e isto está correto, pois a filosofia NÃO tem objeto, NÃO tem método, é uma forma de usar a razão diferente da ciência) e, assim como Nietzsche dizia, um filófofo não tem muito cuidado ao refletir sobre algo (pelo caráter da filosofia), eu penso, e espero que minha imersão no mundo acadêmico não mude essa idéia, que especialistas, estudiosos de filosofia não são filósofos de fato. Estou falando dos acadêmicos que se especializam na obra de um autor e ficam bitolados, parecendo que não tem um pensamento próprio. Vem um desse e diz garbosamente: "Sou o maior especialista em Kant do Brasil!". Isso de fato é um mérito. Mas quanta mediocridade! Não há método em filosofia, mas se existisse um meio exato de fazer filosofia, para mim não seria mera interpretação, releitura e/ou reprodução do pensamento de outrem. Assim, o academicismo é um dos principais algozes da filosofia!

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Assim Começa Zaratustra

Assim como Zaratustra, da obra de Friedrich Nietzsche "Assim falava Zaratustra", começo a escrever neste blog. Escrevo porque preciso escrever, assim como Zaratustra desceu de sua montanha para espalhar sua sabedoria, se sentindo como uma abelha carregada de mel a ser espalhado.

Não, não me acho o sábio dos sábios, só uma pessoa que questiona o inquestionável. Inquesionável não porque não se deve questionar, mas porque as pessoas não se preocupam mais em questionar, vivendo suas suas vidas por tabela, ao sabor das contingências de seu tempo e espaço. Muitas coisas que antigamente eram facilmente questionáveis, em nosso tempo, se tornaram inquestionáveis. Algo deveras paradoxal num tempo em que a razão se torna hegemônica. A ciência tem emperrado, amordaçado o pensamento humano. A utilidade do conhecimento pretendido por Bacon foi longe demais. O academicismo ata nossas vontades. Somente os títulos importam.

Desta feita, apesar de estar a iniciar o curso de Filosofia pela UFMG, este blog não se volta ao academicismo. Meu objetivo é mostrar a diferença entre ser um filósofo e um estudante de filosofia. A filosofia acadêmica está enclausurando os livres pensadores do mundo. Assim como Zaratustra, hoje a filosofia é uma asceta na montanha, e precisa se mostrar para o mundo. Não temos que buscar uma utilidade de mercado para a Filosofia. A Filosofia é muito maior e mais antiga que isso. Ela tem que mostrar a humanidade que outro mundo é possível, porque outras formas de pensar são possíveis. Como disse Saramago (muitos dos bons filósofos dos últimos tempos foram escritores), é urgente voltar à filosofia e à reflexão.